Fabula, la recherche en littérature (actu)

Costa Lima Histoire, fiction, littérature

Parution livre

Information publiée le mardi 27 février 2007 par Bérenger Boulay (source : séminaire de François Hartog)



_blank

Luiz Costa Lima

Histoire, fiction, littérature

(ouvrage non traduit)


História. Ficção. Literatura
, de Luiz Costa Lima, 434 pp., Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2006
Isbn: 9788535908572

Présentation (site de l'éditeur):



História. Ficção. Literatura traz as respostas originais de Luiz Costa Lima a um desafio teórico polêmico. Por sua condição necessariamente discursiva, a historiografia não pode prescindir da interseção com os domínios da ficção e da literatura. Mas será isso suficiente para reduzi-la a uma espécie de discurso ficcional?
Para o autor, é preciso destacar as diferentes metas que orientam a escrita da história e a ficção. Assim como a ficção extrapola o domínio da literatura, a história responde a uma necessidade específica do ser humano: conhecer o seu passado.
Sem negar que esse conhecimento não se realiza senão num discurso, Costa Lima ressalta que a história reivindica uma veracidade estranha à ficção. Se o discurso ficcional se caracteriza pela porosidade, o historiográfico trabalha com uma verdade sem poros, numa aporia que ameaça converter-se em blindagem contra o autoquestionamento.

1. A HISTORIOGRAFIA NASCENTE

"[...] As nascentes são insondáveis" (Heródoto, Histórias, II, 28)
"[...] Das Begreifen des Menschen faßt nur die Mitte, nicht den Anfang, nicht das Ende" ("A compreensão humana apreende apenas o meio, não o começo nem o fim") (Gustav Droysen, Historik: 1882, 30)


1. A ESCRITA DA HISTÓRIA DO PONTO DE VISTA DE UM ALIENÍGENA

De um duplo ponto de vista, sou eu o alienígena. Desde logo porque não me interrogo sobre a história como historiador ou, como nos casos clássicos de Hegel e Collingwood, por ser um filósofo. Importa-me a história como estudioso da literatura. Mais precisamente, por me intrigar a falta de investimento teórico suficiente na diferença entre fact and fiction (cf. Finley, M. I.: 1985, 18). O problema talvez nem sequer tivesse maior impacto sobre mim se me mantivesse de acordo com a sinonímia entre literatura e ficção.
A investigação que ora se inicia parte do suposto de que a literatura tem fronteiras muito mais fluidas que a ficção. Se, do ponto de vista de seus respectivos princípios de organização, história e ficção são formações discursivas diferenciadas, o problema se aguça quando tratamos não de dois, mas de três termos. Em suma, é como teórico da literatura que me ponho a questão da escrita da história. Eis a primeira marca do estranho no ninho aqui presente.
Ela se torna mais embaraçosa quando sou obrigado a reconhecer a segunda marca: não sei grego, embora tenha escolhido tratar de historiadores gregos. Sempre considerei saudável a regra de não tratar de autores que não pudesse ler no original. Sou levado a desrespeitá-la porque a presença, na tradição ocidental, de Heródoto e Tucídides os torna indispensáveis à indagação que me propus. Prescindir deles porque não posso apreciá-los em sua formulação original equivaleria a dar um tratamento sofístico às epígrafes escolhidas: poderia dispensá-los porque as nascentes do Nilo são insondáveis e temos de nos contentar com o que está entre o começo e o fim. Mas Heródoto e Tucídides não são o princípio da escrita da história; são apenas os primeiros historiadores de quem possuímos os textos integrais. Tornam-se os primeiros com os quais começa a questão que nos perturba: por que não os considerar pertencentes à mesma linhagem homérica? Bastaria saber que eles não queriam ser assim figurados, se a razão de sua recusa - falar não de acordo com a Musa, mas a partir das investigações que reuniram ou do que viram - veio a ser constantemente contestada? Por que então não considerar o questionamento de um e outro como indício de pertencerem ao mesmo campo? Mas qual campo, o da literatura ou o da ficção? A solução fácil jogaria fora a criança com a água do banho.


2. SINTOMAS DO PROBLEMA

No livro que publicou pouco antes da morte, o emérito historiador inglês M. I. Finley acusava seus colegas de se recusarem a reconhecer que a oralidade dominante no século V a.C. criava o problema insolúvel da ausência de suficientes fontes confiáveis: "Partimos da premissa errada de supor que os gregos e os romanos consideravam o estudo e a escrita da história essencialmente como fazemos" (Finley, M. I.: 1985, 14). Com a extrema sinceridade dos que sentem a morte próxima, Finley considerava a impropriedade da concepção de história que se elaborara desde finais do século XVII, com sua ênfase no confronto das fontes e na verificação de sua autenticidade, a qual não era minorada pelos achados arqueológicos, pois estes, ainda que se acrescentem às fontes escritas, não fornecem "um esquema conceitual teoricamente fundamentado" (id., 18).
A justa advertência nos fez pensar. Não deveríamos nos restringir àqueles que, de antemão, concordam com a observação de Finley? Mas se o fizéssemos não retrataríamos o estado atual dos estudos sobre a historiografia grega e, em conseqüência, não nos habilitaríamos a levar adiante nossa questão particularizada. Preferimos uma solução intermediária: partir de abordagens conformes ao padrão mais comum e então apontar para duas (C. Meier e F. Hartog) excepcionais. Aquelas indicarão o tom dominante, de que estas divergirão, embora aqui não tratadas detalhadamente.
Comecemos por três abordagens recentes sobre a relação entre historiadores e poetas, como amostragem da reflexão sobre a questão, por especialistas em história antiga. São eles K. Dover, Simon Hornblower e J. L. Moles. Procurar-se-á por eles esboçar o horizonte da questão.
O artigo do erudito inglês Kenneth J. Dover é sintomático dos conflitos interpretativos atuais. Referindo-se a uma tradição que se estende desde Dionísio de Halicarnasso, passa pelos comentadores medievais e se prolonga além do Renascimento, Dover observa a diferença de tratamento conferido a historiadores e não-historiadores:

[...] Quando se trata de estudar um autor que não é um historiógrafo, os historiógrafos são tratados como autoridades e seus enunciados como dados rigorosos (hard data); mas quando o crítico ou o erudito se volta para uma obra historiográfica, trata-a como completa e evidente (self-contained and self-explanatory). (Dover, K. J.: 1983, 56)

A relevância da distinção está em que os "dados rigorosos" concernem a questões gramaticais, lexicais e estilísticas, ao passo que a pergunta "que espécie de escritor era ele" (i. e., o historiador) não era considerada. O descaso pela especificidade da escrita da história, agravado pela relevância que a retórica alcançaria, sobretudo entre os romanos, a partir do século IV a.C., levaria Flávio Josefo, no século I d.C., a escrever: "Perderia meu tempo por uma ninharia se fingisse ensinar aos gregos aquilo que eles sabem melhor do que eu", pois seus próprios autores se acusam mutuamente por suas incorreções e mentiras, e todos, depois de Timeu, "a Heródoto. [...] E não só, o próprio Tucídides é acusado por alguns de haver escrito o que é falso, embora pareça ter-nos dado a história mais exata dos assuntos de seu próprio tempo" (Josefo, F.: -, 1, 3, 774-5).
Tal estado de coisas, com o conseqüente menosprezo de a escrita historiográfica conter o registro do que houve, se agravaria com a expansão e a consolidação do cristianismo. Assim Nancy Struever acentua que a historiografia renascentista não seria compreendida sem se levar em conta o processo de cristianização da retórica. Ao passo que, entre os contemporâneos de Tucídides e, depois, em Roma, a retórica fora beneficiada pela descrença introduzida pelos sofistas quanto à existência de princípios primeiros e, portanto, pela força que assumiam as técnicas de persuasão, a cristianização da retórica fora nociva aos historiadores fosse pela subsunção do lógos a princípios que se julgavam inquestionáveis, fosse pela linguagem suntuosa:

Ao passo que Górgias vira as técnicas retóricas como mediadoras de uma realidade dionisíaca, a realidade preexistente suposta pelos dialéticos é uma realidade espiritual de necessidade absoluta, além dos fenômenos e da história. (Struever, N.: 1970, 34)

E, além do marco renascentista, que mereceria um tratamento específico, como esquecer a força que a retórica cristianizada, i. e., subordinada à teologia, conservará no barroco? Recorde-se de passagem a reflexão de seu mais famoso sistematizador. Para Emmanuele Tesauro, nenhuma diferença existia entre as obrigações textuais a que estão sujeitos o poeta e o historiador: a ambos se impunha atentar seriamente para a composição escrita de seus argumentos. Na passagem que traduzimos, Tesauro considera exclusivamente o "estilo histórico". Ele é visto entre as "figuras argutas", consistentes na "significação engenhosa" (Tesauro, E.: 1654, 121). Daí resulta sua crítica aos romanos Salústio e Tácito. A Salústio, "que, ostentando a breve eloqüência em vez da eloqüência e mais falando com o espírito do que com a voz, mutila os últimos pés do período" e a Tácito, porque seus períodos "vão tropeçando, entorpecidos pelo mesmo morbo" (id., 153). Por isso mesmo não é acidental que, fora do centro de irradiação do cristianismo institucionalizado, um contemporâneo de Tesauro, Hobbes, desse um basta à orgia retórica. Sem se opor frontalmente à palavra em função de adorno, escrevia:

Em uma boa História, o Julgamento deve ser eminente; porque a qualidade (goodness) consiste no Método, na Verdade e na Escolha das ações que sejam mais proveitosas em serem conhecidas. A Fantasia não tem lugar, mas tão-só adornar o estilo. (Hobbes, T.: 1651, 1, 8, 51)

No pensador político, a história esboçava a recuperação da aporia grega, i. e., a sua preocupação primeira com a verdade. Ela se generalizará a partir do século XIX. E que direção diversa poderia ser reconhecida naquele que se tem como o melhor conhecedor da história antiga na atualidade, Arnaldo Momigliano? Na abertura de seu ensaio sobre o Metahistory (1973) de Hayden White dirá:

Devo começar por dizer que a razão básica de meu desacordo com Hayden White [...] é antes acerca do futuro do que a propósito do passado. Temo as conseqüências de sua abordagem da historiografia porque eliminou a pesquisa da verdade como a tarefa principal do historiador. (Momigliano, A.: 1984, 49)


Url de référence :
http://www.companhiadasletras.com.br/



Derniers ouvrages parus :

Le Dit des Heiké

S. Kierkegaard, La Crise et une crise dans la vie d'une actrice

E. Maigret et M. Stefanelli (dir.), La Bande dessinée : une médiaculture

I. Raynauld, Lire et écrire un scénario - Le Scénario de film comme texte

J.-F. Bédia, Les Ecritures africaines face à la logique actuelle du comparatisme

Eusèbe de Césarée, Histoire ecclésiastique. Commentaire - Tome I : Études d'introduction

P. Engel, Les lois de l'esprit, Julien Benda ou la raison  

P. E. Fobah, Introduction à une poétique et une stylistique de la littérature africaine

M.-C. Alexandrine-Sinapah, Itinéraire d'un esclave-poète à Cuba - Juan Francisco Manzano (1797-1854) entre littérature et histoire

Cl. Launchbury, Music, Poetry, Propaganda. Constructing French Cultural Soundscapes at the BBC during the Second World War 

O. Rosenthal, Ils ne sont pour rien dans mes larmes

A. Alciato, Il libro degli Emblemi, secondo le edizioni del 1531 e del 1534

Marc Azéma, La Préhistoire du cinéma

J. Milly, Au seuil de l'image

I. Mons, Lou Andreas-Salomé. En toute liberté

N. Redouane, Lecture(s) de Rachid Mimouni

Chr. Martin (dir.), Fictions de l'origine (1650-1800)

D. Brooks, The Sons of Clovis : Ern Malley, Adoré Floupette and a Secret History of Australian Poetry

Jean Richepin, Truandailles

C. Meyer-Plantureux, Romain Rolland - Théâtre et engagement

C. Aliberti, Du spasme existentiel à la quête de rédemption

M. Kadima-Nzuji, Théâtre et destin national au Congo-Kinshasa - 1965-1990

Jean-Yves Tadié, Le lac inconnu - Entre Proust et Freud

N. Frogneux (dir)., J. Patocka. Liberté, existence et monde commun

Verlaine, Romances sans paroles (éd. Arnaud Bernadet)

Fil d'informations RSS Fil d'information RSS   Fabula sur Facebook Fabula sur Facebook   Fabula sur Twitter Fabula sur Twitter